Vale a pena ser pecuarista no Brasil hoje?

A pecuária de corte brasileira, da forma como está estruturada em 2025, não é financeiramente viável para a maioria dos pecuaristas. Os números não deixam dúvida:
Visões distorcidas da realidade
Em recente entrevista, um especialista do setor defendeu que a pecuária de precisão (uso intensivo de tecnologia, dados, monitoramento de pastagens, nutrição de precisão, etc.) iria substituir a pecuária tradicional no Brasil.
Embora essa visão traga elementos corretos sobre avanços tecnológicos, não corresponde à realidade prática do agronegócio brasileiro, considerando sua diversidade de sistemas produtivos e desafios econômicos.

  1. Preço x Custo Operacional Total (COT)
    • Preço médio da arroba (2025): R$ 270
    • COT médio nacional: R$ 300/@
    • Resultado: Prejuízo de R$ 30 por arroba
  2. Impacto financeiro anual
    • Produção nacional: 585 milhões de arrobas/ano
    • Prejuízo acumulado: 585 mi × –30 = –R$ 17,55 bilhões/ano
    Milhões de pecuaristas estão literalmente pagando para produzir, descapitalizando suas fazendas e aumentando o endividamento.
  3. Lucros concentrados na indústria
    • Lucro líquido consolidado dos frigoríficos (2024): R$ 13,2 bilhões
    • Receita bruta muito superior a R$ 500 bilhões, com margens positivas mesmo com arroba baixa.
    • Esse valor não é apenas do Brasil. É a receita global consolidada dos três grandes players, incluindo:
    o Operações no Brasil;
    o Unidades nos EUA, Austrália, América Latina e outros países onde essas empresas atuam.
    A indústria consegue lucrar porque:
    • Compra barato no Brasil;
    • Exporta cortes nobres e processados;
    • Comercializa subprodutos (miúdos, couro, sebo, pedra da bílis), subsidiados indiretamente pelo próprio pecuarista;
    • Atua em mercados internacionais com preços bem superiores ao interno.
  4. Sustentabilidade da atividade
    • Pecuaristas sem margem para reinvestir ou modernizar sistemas;
    • Endividamento crescente e aumento de recuperações judiciais;
    • Ausência de políticas públicas eficazes para proteger a base produtiva;
    • Cadeia da carne bovina financeiramente desequilibrada: indústria concentra lucros, enquanto o produtor primário opera no vermelho.

Conclusão técnica
Hoje, não é financeiramente atrativo ser pecuarista no Brasil.
A pecuária de corte está dando prejuízo para a maioria dos produtores, enquanto frigoríficos e intermediários capturam lucros bilionários.
Sem políticas públicas sérias, mecanismos de preço mínimo e uma reestruturação da cadeia produtiva, o produtor rural continuará descapitalizado e sem viabilidade.

Por Celso Ricardo Ferreira – Consultor em Gestão Estratégica em
Agronegócio

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