ANÁLISE COMUNIDADE TRATTO
MAIS IMPORTANTE QUE A NOTÍCIA É O MOVIMENTO QUE ELA REVELA
A próxima usina de energia pode estar dentro da casa das pessoas
Quando pensamos em uma usina elétrica, normalmente imaginamos uma enorme estrutura industrial, com turbinas, chaminés, linhas de transmissão e bilhões investidos em infraestrutura.
Vermont (EUA) está mostrando uma possibilidade diferente, e se uma usina não precisasse estar em um único lugar?
Mais de 5.500 residências passaram a utilizar baterias que, conectadas por software, funcionam como uma espécie de grande usina distribuída. O sistema já fornece cerca de 110 MW, capacidade comparável à de uma pequena ou média usina a gás.
O que está acontecendo é maior do que simplesmente substituir uma fonte de energia por outra, e sim, uma mudança no modelo de infraestrutura.
Em vez de a concessionária produzir toda a energia e distribuí-la para consumidores passivos, milhares de consumidores passam a possuir recursos capazes de armazenar e devolver energia à rede.
O consumidor deixa de ser apenas consumidor e passa a ser parte da infraestrutura energética. Mudando a lógica econômica do setor.
Em vez de construir uma nova usina para atender alguns poucos momentos de pico durante o ano, a concessionária pode coordenar milhares de baterias residenciais, veículos elétricos, painéis solares e outros equipamentos.
Exemplo concreto: Uma família paga US$ 55 por mês para ter duas baterias, para ela, o benefício é simples, quando a rede cai, sua casa continua funcionando.
Mas, para a concessionária, aquela bateria tem outro valor. Em determinados momentos, ela pode utilizar a energia armazenada em milhares de residências para aliviar a pressão sobre a rede.
É justamente essa agregação que transforma milhares de pequenos ativos em uma grande infraestrutura energética.
E há um detalhe ainda mais importante: a GMP (Green Mountain Power) seu principal programa em Vermont é a sua Usina Virtual (Virtual Power Plant – VPP), baseada em redes de baterias residenciais, afirma que seu sistema gerou US$ 11 milhões em economia para os clientes em um único ano.
Portanto, não estamos falando apenas de sustentabilidade. Estamos falando de eficiência econômica.
Essa lógica pode ultrapassar o setor elétrico. O que Vermont está fazendo é um exemplo de uma tendência maior da economia, a infraestrutura está ficando cada vez mais distribuída, inteligente e conectada.
Isso pode acontecer com energia, transporte, telecomunicações, armazenamento e até financiamento.
E existe uma consequência estratégica para empresas e governos: quem controlar a plataforma que conecta milhares de pequenos ativos poderá controlar uma infraestrutura que antes exigia grandes investimentos centralizados.
Imagine isso aplicado ao Brasil.
Milhões de residências com energia solar, baterias e veículos elétricos poderiam, no futuro, funcionar de maneira coordenada como uma enorme infraestrutura energética distribuída.
Para um país continental como o Brasil, isso poderia representar uma mudança importante na forma de pensar resiliência energética, investimentos em transmissão e segurança do abastecimento.
A grande transformação não é a bateria. É a descentralização, ontem, infraestrutura significava construir grandes ativos e conectar consumidores a eles.
A próxima geração pode significar conectar milhões de pequenos ativos e transformá-los em uma infraestrutura coletiva.
Análise Giuliano Vitorino – Tratto Brasil



