ANÁLISE COMUNIDADE TRATTO
MAIS IMPORTANTE QUE UMA NOTÍCIA É O MOVIMENTO QUE ELA REVELA
O dólar digital saiu da bolha cripto e começou a entrar na economia real. E talvez esse seja o ponto mais importante dessa movimentação toda envolvendo stablecoins no Brasil, e não estamos mais falando apenas de investidores especulando em ativos digitais. Estamos falando de empresas tentando reduzir custo operacional, ganhar velocidade e escapar da ineficiência do sistema financeiro tradicional.
Quando o agro, importadores, empresas de tecnologia e corretoras começam a usar uma mesma solução em escala, normalmente existe uma mudança estrutural acontecendo por trás.
Os números já mostram isso.
Segundo dados do Banco Central, as operações internacionais com stablecoins movimentaram cerca de R$ 34,5 bilhões apenas no primeiro trimestre de 2026. Isso representa o dobro do registrado no mesmo período do ano passado. E mais, as stablecoins já representam aproximadamente 98% de todo o volume de criptoativos enviados ao exterior por brasileiros.
Na prática, o mercado encontrou um “dólar digital” mais rápido e mais barato. E o motivo é extremamente pragmático: o custo.
Uma empresa que envia R$ 50 mil ao exterior pelo sistema tradicional pode perder entre 2% e 4% da operação em IOF, spread cambial, SWIFT e taxas bancárias intermediárias. Pela rota das stablecoins, o custo normalmente fica entre 0,5% e 1,5%, muitas vezes sem incidência relevante de IOF.
Quando isso é aplicado em operações de US$ 100 mil, US$ 1 milhão ou mais, a diferença deixa de ser detalhe financeiro e vira vantagem competitiva.
O interessante é observar quem começou a puxar esse movimento.
Muita gente imagina que isso nasceu dentro do universo “tech”, mas o texto mostra algo mais profundo, o agronegócio aparece entre os setores mais ativos nessa adoção. E isso faz sentido.
O agro brasileiro já opera integrado ao mercado global há muitos anos. Compra insumos internacionais, exporta commodities, depende de câmbio, logística, hedge e fluxo constante de pagamentos cross-border. Quando surge uma tecnologia que reduz prazo, custo e dependência bancária, a tendência natural é adoção rápida.
O mesmo vale para empresas de tecnologia, e-commerce, games, marketplaces e profissionais digitais que recebem do exterior. No fundo, stablecoin começa a ocupar um espaço parecido com o que o PIX ocupou internamente no Brasil, simplificando o fluxo financeiro.
Só que agora em escala internacional.
E talvez exista uma leitura ainda mais importante por trás disso tudo, as empresas estão começando a perceber que podem operar parte da sua estrutura financeira fora da lógica tradicional dos bancos.
Esse talvez seja o verdadeiro ponto de tensão regulatória.
Porque, quando o governo observa bilhões migrando para estruturas com menor incidência tributária, velocidade maior e menos intermediários, o debate deixa de ser apenas tecnológico. Ele passa a ser fiscal, monetário e político.
A tentativa de ampliar o IOF sobre stablecoins mostra exatamente isso.
O Estado percebe que existe um deslocamento silencioso acontecendo na infraestrutura financeira. E toda vez que infraestrutura muda, poder econômico também muda.
O mais curioso é que o movimento parece apenas no começo. A próxima etapa provavelmente não será apenas pessoas usando stablecoins. Serão sistemas usando stablecoins automaticamente.
A parte mais estratégica talvez esteja justamente no final, onde agentes de inteligência artificial começando a realizar pagamentos sem intervenção humana. Isso parece distante, mas provavelmente não está.
Quando Amazon, Google, Shopify e outras gigantes começam a testar infraestrutura de pagamentos autônomos, o mercado já não está mais discutindo apenas “cripto”. Está discutindo o futuro da liquidação financeira global.
E isso pode mudar muita coisa.
Do papel dos bancos ao modelo tributário dos países.
Da velocidade do comércio internacional ao funcionamento do próprio dólar digitalizado.
Talvez por isso o avanço das stablecoins esteja acelerando tanto em mercados emergentes.
Em países onde custo bancário, burocracia cambial e volatilidade econômica ainda pesam muito, qualquer tecnologia que reduza atrito financeiro encontra terreno fértil rapidamente.
No fim, a discussão sobre stablecoins talvez nem seja mais sobre criptoativos.
Pode ser sobre eficiência.
E historicamente, quando eficiência financeira encontra escala, dificilmente o sistema antigo consegue impedir o avanço por muito tempo.
Análise Giuliano Vitorino – Tratto Brasil
Fonte: https://www.infomoney.com.br/business/do-agro-a-tech-empresas-buscam-dolar-digital-para-reduzir-custo-do-cambio/



