Governo Trump declara PCC e CV organizações terroristas: o que pode acontecer agora?

ANÁLISE COMUNIDADE TRATTO

MAIS IMPORTANTE QUE UMA NOTÍCIA É O MOVIMENTO QUE ELA REVELA

A decisão do governo americano de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas não é apenas uma pauta de segurança pública. Ela abre uma nova fase de pressão financeira, diplomática e geopolítica sobre o Brasil.

O ponto central é, quando os Estados Unidos deixam de tratar um grupo apenas como “crime organizado” e passam a tratar como “terrorismo”, o jogo muda completamente. O tema sai do campo policial e entra no campo da segurança nacional americana.

Isso amplia enormemente o alcance das ferramentas jurídicas, financeiras e de inteligência dos EUA.

O que muda na prática é que muita gente pensa automaticamente em intervenção militar, mas esse provavelmente não é o principal risco.

O maior risco é financeiro e sistêmico. Os Estados Unidos controlam boa parte da infraestrutura financeira global, como o dólar, sistema bancário internacional, compensações financeiras, cartões internacionais, seguros, fluxos globais de pagamento e monitoramento internacional de lavagem de dinheiro.

Ou seja, não é necessário enviar soldados para pressionar um país, basta apertar mecanismos financeiros. Os EUA podem, a partir dessa classificação, o governo americano ganha argumento político e jurídico para:

  • bloquear contas;
  • congelar ativos;
  • ampliar investigações;
  • monitorar transações;
  • sancionar pessoas e empresas;
  • restringir acesso ao sistema financeiro internacional;
  • pressionar bancos;
  • ampliar cooperação internacional seletiva;
  • criar barreiras indiretas contra negócios suspeitos.

E aqui está o detalhe mais importante, não precisa existir intenção criminosa direta. Se uma empresa, banco, fintech, transportadora, posto, comércio ou operador financeiro tiver algum vínculo indireto com recursos ligados às facções, ela pode entrar no radar.

Existe um risco invisível que quase ninguém está discutindo e o ponto mais delicado da notícia. O Brasil possui uma economia extremamente pulverizada e informal em várias regiões, em algumas comunidades empresas pagam taxas ao tráfico, serviços funcionam sob influência territorial, comerciantes operam em áreas dominadas, transporte, internet, gás e logística podem ter algum grau de interferência criminosa.

Isso significa que, num cenário extremo, até relações indiretas podem virar objeto de investigação financeira internacional, surgindo um risco sistêmico, o medo.

O mercado financeiro global funciona muito baseado em percepção de risco, onde, se bancos internacionais começarem a enxergar o Brasil como ambiente de risco elevado ligado a terrorismo, o impacto pode incluir:

  • crédito mais caro;
  • aumento do custo de captação;
  • pressão cambial;
  • redução de investimentos;
  • aumento do compliance;
  • fechamento de contas;
  • restrições operacionais.

Preocupando o governo pois nosso sistema financeiro é extremamente sensível. Grandes bancos internacionais preferem exagerar na prevenção do que correr risco de punição americana, ou seja, mesmo sem existir sanção formal ampla contra o Brasil, o simples medo de futuras punições já pode gerar comportamento defensivo do mercado.

Podendo os bancos endurecerem as regras, operações ficarem mais lentas, transferências podem ser monitoradas e empresas podendo ter dificuldades internacionais.

Agora, existe chance real de algo extremo acontecer? Hoje, os especialistas consideram improvável um cenário radical contra o Brasil, devido o Brasil e Estados Unidos possuirem forte integração comercial, cadeias produtivas conectadas, investimentos bilionários, empresas atuando nos dois países e dependência mútua em vários setores.

Diferente de países menores ou mais isolados geopoliticamente, uma ruptura pesada com o Brasil teria custo também para os EUA.

Então por que essa medida foi tomada? Porque ela também possui forte componente político e eleitoral. Nos EUA, o combate duro ao narcotráfico e ao crime organizado gera apoio político interno, além disso, a medida aumenta pressão diplomática sobre o governo brasileiro em um momento sensível.

E aqui aparece uma jogada política importante: se o governo brasileiro reagir contra a medida, pode ser acusado internamente de “defender facção”. Se aceitar integralmente, pode admitir uma narrativa internacional que amplia a influência americana sobre temas internos do Brasil.

O crime organizado deixou de ser apenas um problema policial e começa a ser tratado como questão geopolítica, financeira e estratégica internacional. Mudando todo cenário desde comércio, política, sistema financeiro e relações internacionais.

O principal aprendizado, é que o maior risco do século XXI não seja apenas militar, mas sim financeiro, onde países são pressionados sem um único tiro.

Análise Giuliano Vitorino – Tratto Brasil

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c0q2yjq0e87o

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